Tuesday, July 07, 2009

Moenda

usina
mói a cana
o caldo
e o bagaço

usina
mói o braço
a carne
o osso

usina
mói o sangue
a fruta
e o caroço

tritura suga torce
dos pés até o pescoço

e do alto da casa grande
os donos do engenho controlam
o saldo e o lucro

Canavial

minha terra é aqui
onde barro e carne
misturam-se num só corpo

onde suor e sangue
transformam-se
em um só espírito

onde matar a sede
é não ter o líquido
onde matar a fome
é não comer o pão

onde o negror da pele
me transporta ao fogo
dos olhos de Maria
na primeira escravidão

Santa Cruz

como outra qualquer
vão moendo
sem adiantar gritar
que está doendo

porque o dono da usina
vai metendo...

até que entre os dentes da moenda
escorra o caldo da moagem
e só o dono da engrenagem
todo líquido vai bebendo

Novo Horizonte

um padre de saia preta
segue à risca
seus instintos
tendo o usineiro do lado:

dá hóstia para os famintos
e ventos pros flagelados

Baiafro

essa áfrica nos meus olhos
e navegar é minha sina
em toda febre todo fogo
que incendeia o continente
nos teus olhos de menina

eu sou um poeta
e nunca fui a china
mas vermelho é o meu sangue
desde que nasci

Sede dos Meus Olhos

carinhosamente
bebo os olhos teus
pra matar a sede
e aflição dos meus

toda água desse rio
beberia eternamente
pois a minha sede
não morre de repente:

é paixão
que não tem hora pra chegar
barco que vai embora
sem saber voltar
navegando mar inteiro
vale rios velas cais
pois a sede dos meus olhos
não se matam nunca mais
artur gomes
in suor & cio
http://tropicanalice.blogspot.com/

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